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Solidão que dói

  • 6 de fev.
  • 4 min de leitura

Quem já não se sentiu incomodado, melancólico, ansioso, quando está sozinho em momentos do dia em que não tem tarefas nem compromissos,  sem um interlocutor, sem estar interagindo com alguém?

Por que nós adultos, nos momentos em que estamos sozinhos, sem estarmos interagindo com alguém, muitas vezes sentimos essa ausência de interação como uma solidão dolorida ou mesmo apavorante, sem razões aparentes?


É uma sensação de solidão que se aproxima da sensação de abandono, de estarmos sozinhos no mundo, mesmo quando temos uma vida social e afetiva ativa, parceria amorosa, familiares com quem convivemos, colegas de trabalho com quem nos relacionamos bem.


Por que esses momentos em que estamos em nossa própria companhia amedrontam e doem?


Qual seria a razão de nos sentirmos assim?


A solidão que dói no presente reflete a solidão que sentíamos no início da vida, quando não nos sentíamos aprovados na nossa expressão autêntica.


Uma fase em que ainda não entendíamos as nossas emoções e sentimentos e, quando não os sentíamos vistos, acolhidos, legitimados, nos sentíamos desprotegidos e sós para lidarmos com suas intensidades.

Era um momento da vida em que tínhamos poucos recursos para lidar com tais intensidades, pois a nossa capacidade de autorregulação era inexistente ou quase isso. 


Por isso, essa sensação de estarmos sós era acompanhada de medo e dor, a dor primeira, original, que todos temos registrada na nossa memória celular.


Os primeiros anos de vida se caracterizam como uma fase em que dependíamos do olhar do outro para descobrirmos quem éramos ou deveríamos ser e precisávamos da sua permissão e aprovação para nos expressarmos. E, quando não nos sentíamos aprovados em nossa singularidade, duvidávamos do nosso valor e nos sentíamos sozinhos e perdidos, o que nos ameaçava e nos fazia sofrer.


No presente podemos usufruir da nossa própria companhia de outra forma, sem sermos capturados pela solidão que dói sentida no passado, quando conseguimos olhar para dentro sem medo e sem tantas inseguranças, com prazer em sermos quem somos.


São momentos íntimos, preciosos, em que podemos oferecer um olhar amoroso para a nossa singularidade e ficarmos em paz com a nossa imperfeição, porque já entendemos que ela é uma condição humana.


Nós, adultos, precisamos compreender que o que chamamos de solidão desagradável são os momentos em que estamos em contato íntimo conosco, que estão contaminados pelos medos da criança que nos habita.


Na realidade, esses são momentos fundamentais para podermos elaborar o que foi vivido nas trocas realizadas e sentido no íntimo a partir delas, para que possamos extrair dessa elaboração os aprendizados necessários ao nosso autocuidado e à nossa evolução.


É essa compreensão que irá nos permitir separar a dor da solidão da criança que nos habita da relação íntima que precisamos ter conosco, se desejamos evoluir.


A criança que fomos tinha medo das próprias emoções e sentimentos por ainda não ter recursos suficientes para lidar com suas intensidades e, por isso, os evitava se valendo de suas defesas, de forma reativa e automática, ou seja, ficando ausente de si ao invés de presente em si mesma.


O adulto que somos precisa se manter presente diante das suas emoções e sentimentos, para compreender o que necessita a cada momento e poder escolher de forma consciente a melhor forma de atende-las, se valendo de seus recursos atuais, muitas vezes desconsiderados.


Esse encontro consigo mesmo pode se tornar prazeroso, se soubermos cuidar da nossa criança interior para que a dor dela não nos confunda.


Quanto mais ela se sentir percebida, compreendida e acolhida pelo adulto que somos hoje, quanto mais confiante ela se tornar em relação à nossa presença e proteção amorosa, mais livres seremos para fazer as escolhas adequadas para atender às nossas necessidades e desejos da vida adulta.


Para nós, adultos, é fundamental entendermos que precisamos das experiências trocadas na coexistência ao longo da vida para compreendermos a nós mesmos e podermos evoluir numa direção que nos leve a abraçarmos de novo a nossa singularidade original, sem tantos medos e inseguranças.

Isso nos permitirá desfrutar da nossa companhia sem medo de estar só, por sabermos que não somos autossuficientes mas que  já temos autonomia para nos cuidarmos.

 

Afinal, o principal diálogo que travamos na maior parte do tempo da nossa vida é o diálogo interno, estejamos conscientes ou não dele.

Quando dialogamos internamente de forma inconsciente, automática, deixamos que a forma de se perceber e de compreender a vida da criança que nos habita prevaleça, uma forma que ainda não alcança o sentido de tudo o que foi vivido para o nosso desenvolvimento e a nossa evolução.

Mas, quando nos tornamos conscientes de que todas as trocas feitas na coexistência, desde o início da vida, são insumos para o diálogo interno, podemos corrigir a narrativa da nossa criança interior sobre si mesma e sobre a própria história.

Podemos ajudá-la a compreender o sentido do que foi vivido e a  valorizar a sua singularidade original, da qual teve dúvidas em relação ao seu valor no passado. A nós, adultos, cabe ajudar a nossa criança interior a entender que o que foi vivido, mesmo que sofrido, serviu para convocar seus potenciais criativos de sobrevivência e que ela foi vitoriosa nesse sentido.

 

É importante também nossa criança entender que esses potenciais criativos foram convocados pelas carências vividas para que eles pudessem se tornar, no tempo, as competências necessárias à expressão singular do adulto que iríamos nos tornar.


Essa ressignificação, quando feita, traz paz aos medos e inseguranças internas, permite presença onde havia ausência, acolhimento onde havia abandono e, como consequência, prazer com a própria companhia.


Assim fazendo, poderemos estar conosco sem sentir dor nos momentos em que estamos somente na nossa própria companhia, trocando o medo pela confiança, a dor pelo prazer.


No movimento natural e saudável da Vida o contato com o outro e o contato consigo mesmo têm o mesmo peso, a mesma importância, eles se retroalimentam para garantir o nosso equilíbrio e a nossa evolução.


Cuidar desse movimento cíclico ‘estar dentro/ estar fora’ é uma reconexão com um movimento que deveria ser natural na vida adulta, um movimento presente em outros ciclos naturais inquestionáveis, como o ciclo da respiração, da vigília e sono, do sangue entre artérias e veias, do dia e noite, das águas dos rios e das marés.


Isso faz sentido para você? Comente, pergunte, será um prazer refletirmos juntos 😉

 
 
 

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